Bem Viver é Verbo

In Bem Viver, Política by ancuri1 Comment

O Bem Viver não é substantivo abstrato. O Bem viver é verbo. Verbo que só se conjuga no plural, coletivamente. O Bem viver é vida, e vida é movimento. Raiz que se enraíza buscando a terra, folha que levada ao céu, exposta ao sol processa o verde, seiva que percorre todo o corpo sendo processo, comunicando vida entre folha e raiz.

O Bem Viver aponta a Pacha, o Todo. Tempo e espaço onde estamos. Estamos sendo. Estamos conectados, conectando; enraizados, enraizando; entrelaçados, entrelaçando folhas, galhos, troncos e raiz. A folha viçosa que nasce, apontando o devir, a folha morta, caída ao chão que apodrece. Devir é viço e podridão.

Hoje instalamos a Teia falando de Bem Viver enquanto o país explode expondo suas entranhas apodrecidas. Nada de novo no front. O chorume que escorre no país não difere de qualquer lixão do sistema. Temos em nós nossa Síria, nossa Líbia, nossa Grécia, nosso próprio Estado Islâmico, nosso Israel e nossa Palestina. O sistema padroniza a dor e a doença. O sistema torna enfermo o olho e o olhar. O sistema corrompe o diagnóstico e vende caro o placebo que não cura. O sistema troca Collor por Itamar, Itamar por FHC, por Lula, por Dilma, por Temer. O sistema troca o alvo do ódio para permanecer sistema. O Bem Viver troca o olhar.

A política estatal capitalista preserva a ilusão de olharmos o dedo quando a lua nos atormenta. O analista do sistema aponta a pústula, a febre, a vermelhidão da pele. Cunha é a pústula. E toda a gente grita: Fora pústula! E o Temer é a febre. E a gente grita: Fora Febre! Lula / Dilma a vermelhidão do corpo e a gente passa um balsamo sobre a pele dizendo ser essa vermelhidão um mal necessario.

O Bem Viver enxerga no Todo, na Pacha, no Corpo doente a razão dessa desarmonia. Sim, nós somos um corpo doente. Da Raiz até o o último fio do cabelo. O Capitalismo, ou como dizia o amigo revolucionário Gilvan Rocha, o Capetalismo, está em nós. E nós estamos possessos. Ele está em nossos corpos, em nossas mentes e modos, em nossa forma de ver e analisar o mundo, na nossa forma de ver e de fazer política. Fomos treinados a mirar Brasília, orientados a culpar executivos e parlamentares da política estatal, como mulas adestradas vemos em Michel a nova cenoura a perseguir. Enquanto isso, a Samarco se esconde entre os escombros e a lama da esquecida Mariana; a Belo Monte segue destruindo o Xingú e seus povos; a JBS continuará, com sua corte repatriada em NY, a desmatar, envenenar, acumular seus bilhões, escravizando pessoas e animais; a Odebrecht torna-se heroína denunciando seus corrompidos.

No pré-sal a salvação da pátria, na corrupção a ilusão de que no sistema, o outro é que não presta. O outro é que está apodrecido. E assim esquecemos de nós. Esquecemos que somos a política como realidade por dentro, e ficamos a olhar a política como realidade por fora, nas coisas, no outro, nos acontecimentos enfileirados no tempo.

Mas nós somos a pacha política. O Todo em convulsão em busca de uma alternativa sistêmica. Imiscuídos nas tramas diárias do jogo de força e poder. Nas cumulações das tensões que apontarão os rumos do pós-crise. E não há muitas opções. O sistema é inimigo da vida. E do mundo da vida. O Capitalismo furta de nós a vida que escorre em cada desastre ambiental ou em cada avanço do desenvolvimento. Quando o PIB cresce a natureza padece e a riqueza e a miséria se acumulam. E a política de nossos discursos regorgiza-se do crescimento do PIB. Que contradição! Quanta reflexão e mudança, em nós. Porque é em nós que a mudança começa, como revolução que acontece por dentro, e não rebelião como coisa por fora.

O Bem Viver não é substantivo abstrato. O Bem viver é verbo. Verbo que só se conjuga no plural, coletivamente. O Bem viver é vida, e vida é movimento. Raiz que se enraíza buscando a terra, a folha que levada ao céu, exposta ao sol, processa o verde, seiva que percorre todo o corpo sendo processo, comunicando vida entre folha e raiz.

*texto lido durante a abertura da VII Teia Nacional Presencial da Raiz – Movimento Cidadanista

Comments

  1. Gustavo

    Belas palavras, vamos nos enraizando cada vez mais em nosso Brasil de muitos brasis.

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